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Authors:
_Natália Almeida_
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Visão Geral


O 2,4-D (ácido 2,4-diclorofenoxiacético) é um herbicida fenoxi sistêmico desenvolvido na década de 1940 e ainda em uso hoje. Foi o primeiro herbicida amplamente utilizado no controle de plantas de folha larga e contribuiu significativamente para o controle moderno de ervas daninhas na agricultura, sendo o segundo ingrediente ativo componente de agrotóxicos mais vendido no Brasil. Diferentes formulações variam amplamente nos níveis de toxicidade, efeitos na saúde e impacto ambiental, levando ao debate sobre a regulação e a formação de uma Força Tarefa Industrial sobre o 2,4-D, nos Estados Unidos. Atualmente, mais de 20.000 toneladas são aplicados anualmente, respondendo por US$ 300 milhões em vendas no mercado global de agrotóxicos (EPA RED Facts, 2005 e PAN-UK, 1997).

Descrição Química


O 2,4-D é quimicamente classificado como um herbicida clorofenoxi, inodoro, presente nas formas de pó cristalino incolor ou branco a amarelo. É um oxidante forte e não combustível, no entanto, pode ser dissolvido em líquidos inflamáveis  (CDC NIOSH 2005).

Além do 2,4-D em si, existem comercialmente outros oito sais e ésteres. A forma mais comum é a forma ácida, que é o tema da maioria dos testes de toxicidade (Journal of Pesticide Reform, 2005).

Tem uma meia-vida química no solo entre sete e dez dias, dependendo da temperatura, umidade, esterilidade, composição de nutrientes e oxigenação do solo. Apesar da meia-vida curta, baixos níveis foram detectados no abastecimento de água subterrânea em pelo menos 5 estados nos Estados Unidos.

Emprego


É um herbicida sistêmico pós-emergência usado amplamente para o controle seletivo de plantas de folha larga em uma variedade de alimentos, floresta, aquáticos e locais residenciais. Em média, 20.000 toneladas são usadas  anualmente: 66% na agricultura, 23% no pasto/pastagem e 11% em jardins domésticos. Nos EUA, é utilizado predominantemente no Centro-Oeste, Grandes Planícies e Noroeste (EPA RED FACTS, 2005).


O 2,4-D é comumente encontrado em produtos de cuidados para gramado, entre eles diversos herbicidas, trigo, milho, produtos florestais e produtos para o tratamento de ervas daninhas na estrada.

Aplicação

Pode ser pulverizado por muitos aplicadores diferentes, tais como aeronaves de asa fixa, pulverizadores montados em caminhões ou mesmo em pulverizador costal (mochila) (EPA RED Decision, 2005).

Formulações

Podem ser formulados como concentrados emulsionáveis, grânulos, concentrado solúvel e sólidos, grânulos dispersíveis  em água e pós molháveis. É usado sozinho, mas é comumente formulado com dicamba, mecoprop, mecoprop-p, MCPA e clopiralida (links em inglês) (EPA RED FACTS, 2005).

Quantidade

É um produto químico de alto volume de produção (HPV) (link em inglês), com uma utilização anual de cerca de 20.000 toneladas, tornando-o um dos herbicidas mais utilizados no mundo (#Scorecard e #EPA RED FACTS, 2005). Aproximadamente dois terços do uso é para fins agrícolas e um terço é para fins residenciais.

Histórico


O 2,4-D foi desenvolvido por uma equipe britânica, durante a Segunda Guerra Mundial na Estação Experimental Rothamsted por Judah Hirsch Quastel, e viu pela primeira vez a produção e utilização generalizada no final da década de 1940, sendo vendido comercialmente em 1946. É fácil e barato de fabricar, e consegue matar muitas plantas de folha larga, deixando a plantação praticamente não afetada (embora altas doses em períodos cruciais de crescimento possam prejudicar culturas de gramíneas, como milho ou cereais). O baixo custo do 2,4-D tem levado ao uso contínuo e atualmente é um dos herbicidas mais comumente utilizados do mundo.

Papel como Agente Laranja

O herbicida e agente desfolhante laranja, de longe o mais tóxico dos herbicidas do Exército, foi amplamente utilizado na Guerra do Vietnã para destruir a folhagem em um plano para expor o inimigo destruindo sua cobertura florestal. Era basicamente uma mistura de dois produtos químicos, 2,4-D e 2,4,5-T. O 2,4,5-T é contaminado com dioxina durante a sua produção e embora 50% do agente laranja seja composto de 2,4-D, os piores efeitos para a saúde estão relacionados com a dioxina contaminante do 2,4,5-T (EXOTOXNET, 1996).


Vias de Exposição e Metabolismo


Nos seres humanos, a exposição pode ocorrer por inalação, absorção pela pele, ingestão e contato pele/olho. Uma vez absorvido, há pouca evidência de que é acumulado e apenas uma pequena porcentagem é transformada em conjugados com açúcares ou aminoácidos. Uma dose única é excretada dentro de alguns dias, principalmente através da urina, mas também na bile e nas fezes (Programa Internacional de Segurança Química, OMS Genebra, 1984).

Nas plantas, afeta sementes de dicotiledôneas preferencialmente, em relação às monocotiledôneas, explicando por que é seletivo contra plantas de folha larga. É absorvido pelas folhas da planta e eventualmente entra nos meristemas da planta. A partir dos meristemas, atua como auxina e aumenta as três características seguintes da planta: plasticidade das paredes celulares, quantidade de proteínas produzidas e produção de etileno. Coletivamente, isso faz com que as células se dividam e a planta cresça incontrolavelmente, resultando em danos nos tecidos e, finalmente, em morte.


Efeitos Sobre a Saúde Humana


É relatado por ter efeitos negativos sobre o sistema endócrino (especificamente a tireóide e gônadas) e sistema imunológico.

Pesquisas na Holanda sugerem que o 2,4-D desloca os hormônios sexuais da proteína que normalmente transporta esses hormônios no sangue. Mais especificamente, um estudo feito na Universidade de Missouri relatou uma forte correlação entre a baixa contagem de espermatozoides, número elevado de espermatozoides anormais e a atrofia dos testículos com níveis elevados do produto químico (medido na urina). Além disso, um estudo desta mesma universidade descobriu que ele age mimetizando o estrogênio em células de câncer de mama (CDC NIOSH, 2005).

Pesquisadores da Universidade de Saskatchewan demonstraram que quantidades "ambientalmente realistas" do composto reduzem a atividade de várias proteínas importantes para a função do sistema imunológico. Pesquisadores do NIOSH demonstraram uma diminuição da produção de células responsáveis  pela produção de anticorpos em camundongos de medula óssea, além de células T diminuídas.

Toxicidade Aguda

As diferentes formulações com o composto podem ter toxicidades diferentes; Por exemplo, as formulações de ácido e sal são irritantes oculares graves, considerado classe I no Brasil, enquanto as formas de éster não são (EPA RED Decision, 2005). O 2,4-D é ligeiramente tóxico para os seres humanos e em doses elevadas é um depressor do sistema nervoso central que pode causar rigidez dos braços e pernas, falta de coordenação, letargia, anorexia, estupor e coma (EPA, 2007). É também um irritante do sistema respiratório que pode causar dificuldade prolongada para respirar, tosse, queimação, tonturas e perda temporária de coordenação muscular (EXOTOXNET, 1996). Outros sintomas de intoxicação  incluem irritação, inflamação, prurido e cefaléia (CDC NIOSH, 2005). Os principais órgãos-alvo do produto químico são os olhos, tireóide, rim, supra-renais, ovários e testículos (EPA RED Decision, 2005).

Toxicidade Crônica

Estudos a longo prazo com animais sobre a exposição crônica têm mostrado efeitos no sangue, fígado e rins (#EPA, 2007). Também revelaram ligeiros sintomas crônicos, incluindo uma redução no peso e alterações na química do sangue (#NPTN).

Toxicidade para o Desenvolvimento

Observa-se que é tóxico para o desenvolvimento. Alguns efeitos observados são aumento da duração da gestação, anormalidades esqueléticas e efeitos na tireóide e gônadas (#EPA RED FACTS, 2005).

Carcinogenicidade

Não é classificado como carcinogênico humano, mas alguns estudos têm demonstrado ser um carcinógeno em ratos que foram alimentados com níveis elevados ao longo de dois anos (EPA RE FACTS, 2005 e EXTOXNET, 1996). Recentemente, vários estudos em seres humanos mostraram uma associação entre a exposição e um risco aumentado de formação de tumores, mas ainda não está claro que "isso representa uma verdadeira associação e, nesse caso, se ela está especificamente relacionada com o composto" (EPA, 2007). Vários estudos universitários realizados nos Estados Unidos confirmaram que a divisão rápida e repetida de células sanguíneas ocorre em aplicadores de pesticidas, além de aumentar a atividade de um gene tumoral no fígado. Deve-se notar que o NIOSH lista as formações de sal ácido, sal sódico e dimetilamina como mutagênicos e que o rearranjo cromossômico e as quebras estão ambos correlacionados com níveis aumentados do produto na urina (CDC NIOSH, 2005).


Efeitos Sobre a Saúde Ambiental


Persistência

Depende da sua formulação à medida que entra no meio ambiente, mas "na maioria das condições ambientais os ésteres e as aminas se degradam rapidamente para formar o ácido", que geralmente tem uma baixa persistência em condições normais (EPA RED Facts, 2005). A meia-vida em condições normais do solo é de sete dias e os microrganismos o degradam prontamente sob condições aquáticas normais (EXTOXNET, 1996).

Efeito em Animais e Organismos

É ligeiramente tóxico para as aves selvagens, moderadamente tóxico para as aves domésticas e altamente perturbador para as abelhas (EXTOXNET, 1996).

Várias experiências marcantes de toxicidade foram conduzidas unicamente em animais. Resultados importantes com possíveis aplicações em seres humanos incluem: diminuição do tamanho da ninhada em animais que bebem água contaminada, leite materno contaminado em mães expostas (em ratos e cabras) e efeitos sobre neurotransmissores, tamanho do cérebro, e desenvolvimento de conexões neurais em animais de laboratório (CDC NIOSH, 2005).

Regulação


O 2,4-D se encontra em estado de revisão pré-especial pela EPA desde 1986, devido a preocupações com a carcinogenicidade. O herbicida foi objeto de vários Data Call-Ins (pedidos de órgãos reguladores quando os produtores são obrigados a apresentar dados específicos do produto) (1980, 1994, 1995), que exigem estudos sobre toxicidade, carcinogenicidade (especificamente Linfomas não-Hodgkin), reprodução, metabolismo, reentrada, exposição residencial e química a serem submetidos. A Força-Tarefa concordou com medidas de redução de risco em setembro de 1992. Em 2004, o EPA concluiu que não existe evidência epidemiológica adicional para implicar o composto como agente cancerígeno. Como resultado, foi classificado como Carcinógeno do Grupo D (não classificável para carcinogenicidade humana). As medidas de redução de riscos, como rótulos de produtos modificados e um programa de educação de usuários, ainda estão em vigor (EPA RED FACTS 2005).

Precauções 


De acordo com a EPA, 25% das amostras de 2,4-D foram contaminadas com dioxina (2,3,7,8-TCDD), que é mutagênica, carcinogênica e causa problemas reprodutivos em doses muito pequenas (CDC NIOSH, 2005).

Fontes de Exposição Potencial


As principais fontes de exposição provavelmente resultam da inalação ou contato dérmico durante a fabricação, formulação ou aplicação do 2,4-D, mas a substância já foi encontrada em baixos níveis nos suprimentos de água subterrânea de cinco estados americanos (#EPA, 2007 e #EXTOXNET, 1996).

Referências


European Commission Health and Consumer Protection Directorate-General. "COMMISSION WORKING DOCUMENT - DOES NOT NECESSARILY REPRESENT THE VIEWS OF THE COMMISSION SERVICES". 1 October 2001.


Extension Toxicology Network. "Pesticide Information Profile - 2,4-D". June 1996. Accessed 12-18-07.


United States Environmental Protection Agency. "Pesticides: Reregistration - 2,4-D RED Facts". June 30, 2005. Accessed 12-18-07.


United States Environmental Protection Agency. "Reregistration Eligibility Decision for 2,4-D". June, 2005. Accessed 12-18-07.


United States Environmental Protection Agency. "Technology Transfer Network Air Toxics Web Site - 2,4-D (2,4-Dichlorophenoxyacetic Acid)". Last updated on Tuesday, November 6th, 2007. Accessed 12-19-07.


Scorecard. "Chemical Profiles - 2,4-D". Accessed 12-18-07.


National Pesticide Telecommunications Network (NPTN) at Oregon State University. "2,4-D". Accessed 12-18-07.


Pesticides Action Network-United Kingdom. "2,4-D fact sheet"Pesticides News No.37, September 1997, p20.

Parecer Técnico de Reavaliação nº 7-2015 - GGTOX/ANVISA

 

Tradução realizada por: Adriana Melo

 

Link para a página em inglês: 2,4-D